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| Denielson Silveira idealizador do bloco O Pinguelo da Dadá e Maria Helena leite do juizado de violência contra mulher |
O Carnaval de Tibau, no litoral do Rio Grande do Norte, tem uma irreverência própria: é do tipo que não pede licença para ocupar a rua, mistura alegria com opinião e transforma fantasia em recado. No meio do frevo, das marchinhas e dos encontros que só fevereiro sabe costurar, um bloco tem ganhado força por fazer da folia também um lugar de posicionamento: O Pinguelo da Dadá, um cortejo que desfila com purpurina, batuque e uma ideia simples — e poderosa — de que respeito não é adereço, é regra.
Inspirado na Marcha das Vadias, o Pinguelo de Dadá se apresenta como um grito de resistência e celebração da diversidade. Na prática, isso significa colocar no centro da festa aquilo que muitas vezes é empurrado para a margem: a luta contra o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia e toda forma de preconceito que insiste em atravessar o cotidiano — inclusive nos espaços que deveriam ser de liberdade. O bloco lembra que carnaval é, sim, excesso e riso, mas pode ser também consciência, sem perder o brilho.
A proposta é direta: fazer um “carnaval de todos e para todos”. No Pinguelo da Dadá, a liberdade de ser e de se expressar vira mantra, e a rua deixa de ser apenas passagem para se tornar território de acolhimento. É um espaço onde minorias, pessoas negras, LGBTQIA+, pessoas com deficiência e, especialmente, mulheres encontram não só visibilidade, mas pertencimento. Num país em que a violência contra mulheres e grupos vulnerabilizados ainda se impõe como estatística diária, a mensagem do bloco ecoa como lembrete: diversão não combina com opressão — e consentimento é parte do ritmo.
O que torna a iniciativa ainda mais simbólica em Tibau é justamente o contraste entre a leveza do carnaval e o peso das pautas que ele carrega. O bloco usa a linguagem que o povo entende — música, arte, fantasia e corpo na rua — para dizer que justiça social também se celebra. A batucada, nesse caso, não serve só para marcar o passo: serve para marcar posição. Cada refrão, cada cartaz, cada performance vira um jeito de reafirmar que a cidade pode ser mais segura, mais plural e mais humana quando a alegria não exclui ninguém.
No fim, a irreverência do Carnaval de Tibau ganha um novo sentido quando encontra o Pinguelo da Dadá: não é apenas a piada pronta, o personagem exagerado ou o brilho no rosto. É a coragem de transformar a festa em espelho de um desejo coletivo — o de viver numa sociedade onde ser diferente não seja risco, e onde ocupar a rua seja um direito compartilhado. Porque, quando a folia abraça a diversidade, o carnaval deixa de ser só festa: vira também futuro.


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