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Onde o sertão encontra o mar: Porto do Mangue consolida “Nossos Caminhos” e ajuda a desenhar o futuro da Costa Branca

 Por José Maria Pinheiro

As maravilhosas Donas do Rosado, uma maravilha da natureza que deve ser explorada com sabedoria
Dunas do Rosado em Porto do Mangue/RN (Foto: Canindé Soares)

O vento chega antes de tudo em Porto do Mangue. Ele vem carregado de sal, atravessa a restinga, risca a areia e muda o desenho do chão como quem escreve uma frase nova todos os dias. É um lugar em que a paisagem não fica parada — ela se move. E talvez por isso a cidade seja tão poderosa como metáfora: Porto do Mangue é conhecido por muitos como o único lugar do mundo onde o sertão encontra o mar. A linha que separa o interior seco do litoral úmido parece, aqui, ter sido dobrada pela geografia.

A poucos quilômetros, um espetáculo natural impõe silêncio até em quem chega com pressa. As Dunas do Rosado, com seus contornos claros e vastos, estão entre os cenários mais emblemáticos do Rio Grande do Norte e são tratadas como uma das maravilhas da natureza no imaginário de quem conhece a região. Elas não são apenas um cartão-postal. São um lembrete: desenvolvimento, ali, não pode ser sinônimo de pressa. Precisa ser sinônimo de escolha. E escolha, para um território inteiro, exige método.

Foi nesse cenário — onde a aridez conversa com a água e o vento parece ter opinião — que lideranças de diferentes áreas voltaram a se reunir para uma etapa decisiva do Projeto Líder – Economia do Mar, iniciativa do Sebrae que vem, encontro após encontro, costurando uma agenda estratégica para orientar decisões na Costa Branca Potiguar. O sétimo encontro do projeto, o primeiro deste ano, aconteceu em Porto do Mangue e carregava um nome que, por si só, já era uma tomada de posição: “Nossos Caminhos”.

O que está sendo decidido — e por que isso importa

Informando as diretrizes a serem usadas nos trabalhos em grupo
Rômulo Rende, facilitador do Sebrae informando a metodologia a ser usadas nos trabalhos em grupo (Foto: Estéfany Kimberly)

Em muitas regiões do Brasil, o potencial existe. Falta alinhamento. Falta articulação. Falta um plano que sobreviva à troca de gestões, às disputas locais e à fragmentação natural entre municípios. A proposta do Projeto Líder, na Costa Branca, é justamente reduzir esse ruído criando um instrumento coletivo: uma Agenda Estratégica de Desenvolvimento Territorial Sustentável, construída com participação de representantes do setor produtivo, do poder público e de instituições parceiras.

Essa agenda funciona como uma bússola. Em vez de cada ator decidir sozinho o que é prioridade, o território passa a ter um norte pactuado: missão, valores, visão de futuro, objetivos estratégicos e iniciativas — uma cadeia que vai da identidade do território ao “o que fazer amanhã”.

Experiente facilitadora do Sebrae

Miosótis Lúcio, facilidarora do Sebrae (Foto: Estéfany Kimberly)

A facilitadora Miosótis Lúcio explicou que o encontro tinha um propósito claro: consolidar os elementos da agenda e detalhar o caminho para executar aquilo que já foi definido anteriormente.

“Esse é o encontro sete, sendo o primeiro deste ano, e tem o propósito de promover o entendimento da agenda estratégica e de seus elementos, como missão e valores. Nesse encontro, os líderes consolidam a agenda estratégica para o desenvolvimento territorial sustentável. Já devemos sair com os objetivos estratégicos consolidados, definidos no quinto encontro, e agora vamos detalhar a partir de iniciativas estratégicas, ou seja, o que os líderes se propõem a fazer para realizar esses objetivos.” Miosótis Lúcio

Em termos simples: se antes o grupo definiu onde quer chegar, agora está escrevendo como pretende chegar — e quais ações cabem a cada liderança e instituição nesse percurso.

Economia do Mar: o que significa, na prática

Lideres com expertise de seguimentos variados reunidos para o desenvolvimento do território
Grupo e lideres reunidos em Porto do Mangue no sétimo encontro do Projeto Lider Economia do Mar (Foto: Estéfany Kimberly)

Para entender o peso desse debate, é preciso entender o conceito que dá nome ao projeto. Economia do Mar é o conjunto de atividades econômicas que dependem direta ou indiretamente do mar e da zona costeira. Ela inclui desde setores tradicionais até áreas mais novas, e envolve geração de emprego, renda, inovação e serviços associados ao território.

Na prática, falar em economia do mar é falar de uma engrenagem ampla, que pode reunir, por exemplo:

  • Pesca e aquicultura (produção de pescado e cadeia de beneficiamento)
  • Turismo e hospitalidade (praias, passeios, gastronomia, eventos, experiências)
  • Transporte e logística (movimentação de cargas e serviços associados)
  • Comércio e serviços ligados ao litoral (de pequenos negócios a serviços especializados)
  • Economia criativa (artesanato, cultura, identidade e produtos com valor territorial)
  • Sustentabilidade e conservação como condição de longo prazo (uso responsável de recursos naturais)
  • Inovação e gestão pública voltadas a organizar o território e reduzir riscos (governança, planejamento, dados)

O ponto central é que a economia do mar não é apenas “o que acontece na beira da praia”. Ela depende de planejamento, infraestrutura, qualificação, proteção ambiental e integração entre municípios e instituições. Sem isso, o potencial se dilui: vira promessa repetida. Com isso, vira estratégia.

A base invisível: visão de futuro, missão e valores

Equipe de alto nível
Competente equipe do Sebrae Fernando Sá Leitão, Cátia Lopes e Paulo Miranda (Foto: José Maria)

Há um momento, em processos territoriais, em que o que parecia abstrato começa a ganhar forma. Isso acontece quando as lideranças deixam de discutir apenas projetos isolados e passam a alinhar princípios: qual futuro queremos? qual é nossa missão como território? quais valores não abrimos mão? Essas perguntas, embora pareçam conceituais, são as que sustentam decisões difíceis — como priorizar investimentos, escolher políticas públicas e pactuar responsabilidades.

O gerente da Agência Sebrae no Vale do Açu, Fernando Sá Leitão, destacou que o sétimo encontro cumpre esse papel de aprofundar e organizar a base estrutural da agenda.

“Este sétimo encontro do Projeto Líder Economia do Mar, que acontece em Porto do Mangue, cumpre um papel fundamental ao aprofundar o entendimento da agenda estratégica do território e de seus elementos estruturantes. Aqui, trabalhamos de forma objetiva a definição de visão de futuro, missão e valores, que são a base para decisões mais qualificadas e integradas.” Fernando Sá Leitão

A palavra-chave é “integradas”. Uma Costa Branca que decide de forma integrada reduz a competição desnecessária entre agendas locais e aumenta a chance de produzir resultados que ultrapassem mandatos e circunstâncias.

Quando o plano desce para o chão: infraestrutura, mobilidade e segurança

Se a agenda estratégica desenha um horizonte, a conversa local puxa o tema para o chão — para aquilo que muda a vida de quem mora, trabalha e empreende. E foi exatamente nesse ponto que o prefeito de Porto do Mangue, Francisco Antônio Faustino (Dino), colocou a lente sobre as demandas mais urgentes do território.

Francisco Antonio Faustino (Dino), prefeito de Porto do Mangue (Foto: José Maria)

Para ele, o projeto cumpre um papel pedagógico e prático: ajuda a região a enxergar melhor o que tem — e o que precisa construir para aproveitar suas potencialidades.

“O Projeto Líder Economia do Mar nos traz conhecimento sobre nossas potencialidades, mostra perspectivas de desenvolvimento e abre a cabeça dos empresários. Hoje, precisamos melhorar nossa mobilidade com a construção de uma ponte ou de balsas no Rio dos Cavalos, assim como de um posto policial na comunidade de Pedra Grande, o que ajudaria a reforçar a segurança no território.” Francisco Antônio Faustino (Dino)

A fala do prefeito explicita um ponto que costuma ser decisivo em territórios turísticos e costeiros: potencial sem acesso vira limitação. Mobilidade não é apenas estrada; é conexão entre comunidades, circulação de pessoas, escoamento de produção, tempo de resposta de serviços, custo para o empresário e segurança para o visitante e para quem vive ali.

Ao citar a necessidade de uma ponte ou balsas no Rio dos Cavalos, Dino traz à mesa um gargalo que, em regiões como a Costa Branca, pode significar a diferença entre integrar ou isolar. E, ao mencionar um posto policial em Pedra Grande, ele liga a pauta do desenvolvimento a um ponto central: segurança como condição para investimento, turismo e qualidade de vida.

Dados, governança e cooperação: a tríade para sair do improviso

na elaboração da missão e dos valores do Lider Economia do Mar
Grupos de lideres trabalhando na elaboração da missão e dos valores do Lider Economia do Mar (Foto: Estéfany Kimberly)

O Sebrae reforça que a agenda consolidada deve ser orientada por três pilares: dados, governança e cooperação. Dados para qualificar decisões e reduzir achismos. Governança para criar mecanismos de coordenação e continuidade. Cooperação para unir o que, sozinho, não se sustenta.

Fernando Sá Leitão resumiu esse eixo ao afirmar que a etapa fortalece a economia do mar como vetor estratégico do desenvolvimento regional.

“A etapa contribui para consolidar uma agenda de desenvolvimento territorial sustentável, orientada por dados, governança e cooperação entre os atores locais, fortalecendo a economia do mar como vetor estratégico de desenvolvimento regional.”

É um caminho que exige disciplina coletiva: combinar o impulso de crescer com o cuidado de preservar, e combinar a vocação natural do território com a responsabilidade de planejar.

Porto do Mangue como símbolo: a paisagem que pede estratégia

Quando o encontro termina, Porto do Mangue continua ali com sua geografia improvável. E continuam também as Dunas do Rosado, como uma espécie de advertência silenciosa: o território é belo demais para ser tratado sem estratégia — e sensível demais para ser tratado sem sustentabilidade.

Existe algo de profundamente simbólico em consolidar uma agenda chamada “Nossos Caminhos” exatamente onde o sertão encontra o mar. Como se o lugar dissesse, sem discurso, que desenvolvimento não é uma corrida. É uma travessia. E travessias exigem mapa, bússola e acordo sobre a direção.

Na Costa Branca Potiguar, a economia do mar aparece como oportunidade concreta. Em Porto do Mangue, ela ganha também contorno narrativo: um território que tenta transformar paisagem em valor, vocação em projeto e potencial em decisão — sem ignorar que, para esse futuro acontecer, mobilidade e segurança também precisam entrar na pauta com nome e sobrenome.



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