
Concentração de voluntários e beneficiados no Instituto Vida Videira durante o Ame Seu Visinho (Foto: Ramon)
O DESPERTAR

A manhã de sábado ainda não havia nascido completamente quando o bairro de Felipe Camarão, em Natal, começou a respirar diferente. Não era o vento que vinha do mar, nem o cheiro de café que se espalhava pelas ruas estreitas. Era outra coisa — uma vibração surda, quase elétrica, que percorria as calçadas e entrava pelas frestas das janelas. Algo estava prestes a acontecer.
No pátio do Instituto Vida Videira, Beatriz Brito ajustava os últimos detalhes com a precisão de quem ensaia há meses. Supervisora e coordenadora de projetos, ela sabia que aquele 29 de agosto não seria apenas mais um sábado. Era o Dia D do Ame Seu Vizinho 2026, e o tema da campanha — "Amar é Ver Além" — ecoava em cada canto como um mantra silencioso.
Mais de 10 mil voluntários se espalhavam por cerca de 130 instituições por Natal e Região Metropolitana. Não eram números frios. Eram mãos, rostos, histórias. Eram pessoas como Arabela Mourão, que há quatro anos decidiu cruzar a porta do IVV e nunca mais conseguiu se afastar. Quando lhe pediram uma palavra para definir o que sentia, ela respirou fundo e disse apenas: "Privilegiada."
A palavra ficou suspensa no ar por um instante. Era como se resumisse, nela só, toda a contradição de quem descobre que receber e dar são, na verdade, a mesma coisa.
E ali, misturados à multidão, quase invisíveis
pela discrição com que se moviam, estava a equipe de comunicação. Câmeras em punho, celulares configurados em modo profissional, microfones de
lapela presos na gola de camisetas alheias. Eles não estavam
ali como observadores. Estavam ali como guardiões da memória — capturando, em
cada clique e em cada frame de vídeo, o âmago das emoções que transbordavam
pelo pátio. Um sorriso contido de quem recebe o primeiro atendimento médico do
dia. O aperto de mão entre um voluntário e uma criança que nunca tinha visto um
dentista. O olhar de Beatriz quando, por um segundo, ela parava e deixava a
emoção subir até os olhos. Tudo era registrado — não para o espetáculo, mas
para que aquele instante nunca se perdesse.
Emanuelle Moura CEO do IVV em entrevista à imprensa na ação do Ame Seu Vizinho Na sede do IVV
Beatriz observava o movimento crescer e sentia o peito apertar.
"Ter essa vivência diária com essas famílias é algo que toca muito. Aqui dentro realmente é um lugar de refúgio, de transformação de vida para elas". – Beatriz Brito, Supervisora e coordenadora de projetos do IVV.
Ela havia dito poucos dias antes, como se já antecipasse a onda que estava por vir. O IVV não esperava o Dia D para existir — ele acontecia todos os dias, com atendimento de saúde, educação, refeições dignas e amparo socioemocional. Mas o Dia D era o momento em que tudo transbordava para fora dos muros e alcançava a cidade inteira.
A ESCOLHA
À tarde, quando o sol já não poupava ninguém, uma porta se abriu no interior do Instituto. Não era uma porta qualquer. Era a entrada do Mercadinho Favorito Solidário, e atrás dela havia uma ideia que mudaria tudo.

Vinicius Gama, Diretor Comercial dos Supermercados Favorito
Até então, receber alimentos significava
aceitar uma cesta montada por outras mãos. Era melhor do que nada — sempre. Mas
faltava algo essencial: a dignidade de escolher. Foi esse o insight que moveu
Vinicius Gama, Diretor Comercial do supermercado Favorito, quando concebeu a
parceria. Ele não queria apenas entregar comida. Queria devolver o gesto
elementar de percorrer corredores, tocar produtos, decidir o que entra no
carrinho e o que fica na prateleira.
"Queremos trazer essa dignidade, essa satisfação e essa alegria da pessoa poder entrar aqui, escolher os produtos e saber que, naquela semana, não vai faltar alimento", explicou, Vinicius Gama com a voz firme de quem sabe que fome não se combate só com volume — combate-se com respeito.
As 50 primeiras mães cadastradas entraram no mercadinho como quem entra num lugar que já conhecia, mas nunca tivera permissão para visitar. O espaço havia sido ambientado como um pequeno estabelecimento de bairro: prateleiras organizadas, produtos dispostos com cuidado, o cheiro de temperos da marca Ki-pureza misturado ao aroma de arroz e feijão. Não era caridade. Era cidadania.

Maiara Bezerra, em primeiro plano, escolhendo os produtos, é a dignidade em ação
Maiara Bezerra foi uma das primeiras a
atravessar a porta. Mora nas proximidades do Instituto, carrega nos braços o
peso silencioso de quem sustenta uma família, e carrega também uma gratidão que
ela mal consegue nomear.
"Ter o apoio do IVV é de extrema importância", disse, Maiara Bezerra com os olhos úmidos e a voz ainda mais.
Não precisou dizer mais nada. A cena falava por ela: uma mulher escolhendo, pela primeira vez em muito tempo, o que colocar na mesa dos seus.
E a equipe de comunicação estava lá, atenta, paciente. Uma câmera captou o exato instante em que Maiara tocou a primeira embalagem — o gesto hesitante, quase reverente, de quem redescobre a própria autonomia. Outro profissional gravou o depoimento em vídeo, com a luz natural da tarde entrando pela janela do mercadinho, sem cenário montado, sem roteiro. A matéria-prima era a vida acontecendo. Os criativos que compunham a equipe sabiam que não se tratava de produzir conteúdo — tratava-se de reproduzir cada momento com a fidelidade de quem entende que emoção não se fabrica, apenas se captura. Cada foto, cada vídeo, cada depoimento gravado era uma cápsula do tempo, um pedaço de verdade selado para que o Dia D não fosse apenas lembrado, mas revivido.
A campanha arrecadou 14 mil cestas básicas, distribuídas entre o IVV e outras instituições e ONGs de Natal e Grande Natal. Quase 3 mil cestas abasteceram o IVV e o mercadinho naquele primeiro dia. A meta é ambiciosa e clara: alcançar todas as 600 famílias cadastradas no projeto — aproximadamente 1.700 pessoas que, a partir dali, não precisariam mais apenas receber. Poderiam escolher.
A SEMENTE

Maria Selma, beneficiária e voluntária no IVV, gratidão e amor pelo espaço que lhe acolhe
Maria Selma Soares mora em frente do Instituto
Vida Videira. Se a história tivesse que escolher um rosto, seria o dela.
Beneficiária e voluntária ao mesmo tempo, ela cuida da horta comunitária da
instituição — planta, rega, colhe e devolve. Quando fala do IVV, a voz ganha
uma firmeza que não combina com a fragilidade do corpo.
"A minha casa foi reformada pelo Instituto. Com certeza, o IVV trouxe uma mudança muito grande aqui para o nosso bairro. Eu só tenho a agradecer a Deus e a todo mundo daqui, pois melhorou 100%." Maria Selma Soares, beneficiária e voluntária do IVV.
A frase é simples, direta, quase desarmada. Mas carrega a força de quem viu o próprio endereço mudar de significado. Um bairro que antes era apenas um ponto no mapa da vulnerabilidade agora era também um lugar de refúgio, de transformação, de vida. E quando Maria Selma terminou de falar, diante da lente que registrava cada palavra, não houve necessidade de segunda tomada. A verdade não precisa de repetição.
O Dia D se estendeu até as 16h, com atendimentos médicos, odontológicos e psicológicos, atividades de beleza e bem-estar, refeições, palestras e brincadeiras para todas as faixas etárias. Ao longo de todas essas horas, a equipe de comunicação não descansou. Esteve presente em todos os momentos — da primeira consulta odontológica de uma criança que nunca tinha ido ao dentista, à palestra que fez uma mãe chorar e rir no mesmo minuto, ao corte de cabelo que devolveu a uma senhora o espelho de uma versão mais jovem de si mesma. Fotos, vídeos, depoimentos. Nada escapou. Os criativos trabalhavam como costureiros invisíveis, tecendo com imagens e sons um manto de memória que cobriria cada pessoa que esteve ali.

Pastores Thiago e Anna Coelho, responsáveis pelo IVV, cocriadores, incentivadores e entusiastas da ação Ame Seu Vizinho
Quando o sol começou a descer e os voluntários
recolheram os últimos materiais, ficou claro que o verdadeiro resultado não
cabia em planilhas. Cabia, isso sim, na memória de quem esteve lá — na mão que
segurou outra mão, no sorriso que surgiu onde havia cansaço, na prateleira que
deixou de ser símbolo de escassez para virar portal de dignidade. E cabia
também nos arquivos digitais que a equipe de comunicação reunira ao longo do
dia: um acervo vivo, feito de rostos e vozes, que garantiria que a história do
Ame Seu Vizinho 2026 não fosse apenas contada, mas sentida por quem não pôde
estar presente.

Mercadinho Favorito Solidário foi o ponto alto da ação no IVV
O Mercadinho Favorito Solidário passa a
integrar permanentemente as ações do Instituto. A proposta é que o espaço seja
abastecido continuamente a partir das doações da rede de fornecedores do
supermercado Favorito. Não é um fim. É uma semente.
E se há uma lição que o Dia D do Ame Seu Vizinho deixou gravada na cidade de Natal, ela pode ser resumida numa frase que não precisa de aspas nem de autor: amar, de fato, é ver além. Ver além da cesta, além do número, além da vulnerabilidade. Ver a pessoa inteira — com suas escolhas, sua horta, sua casa reformada, sua história. E garantir que ela tenha, sempre, o direito de escolher o que colocar na própria mesa. E que cada uma dessas escolhas seja registrada, não para a glória de quem registra, mas para a dignidade de quem vive.

Os criativos da Comunicação do IVV, incansáveis e eficientes

Fantástico
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