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| Lideres da Economia do Mar do RN na visita técnica a Chã de Jardim em Areia PB |
Lideranças do Projeto Líder Economia do Mar visitam Chã de Jardim, em Areia/PB, e descobrem como uma comunidade rural se tornou referência nacional em turismo de base comunitária.
A estrada que sobe
A estrada sobe. Deixa para trás o calor seco do litoral potiguar e começa a ganhar altitude — 618 metros acima do nível do mar — num percurso que parece encolher o tempo. O ar esfria. A vegetação muda. Quando o asfalto da PB-079 corta a zona rural de Areia, na Paraíba, o que se vê pela janela do ônibus não é o mar que aquelas lideranças conhecem. É a Mata Atlântica de Brejo de Altitude, um dos últimos remanescentes do gênero em todo o Nordeste.
Era noite de 28 de julho de 2026 quando um grupo de líderes do Projeto Líder – Economia do Mar, iniciativa do Sebrae RN para a Costa Branca Potiguar, desembarcou em território paraibano. Vinham de Guamaré, Galinhos, Areia Branca, Macau, Grossos, Tibau e Porto do Mangue — sete municípios unidos pelo mar, mas que agora viajavam para aprender com quem transformou a terra seca em floresta, o desemprego em empreendedorismo, e o êxodo rural em fixação populacional.
A pergunta que os trouxe até ali era simples e radical: Como uma comunidade que não tinha nada se tornou referência nacional em turismo de base comunitária? A resposta estaria no próximo dia — em histórias de mulheres, polpas de fruta, trilhas na mata, cachaça artesanal e uma determinação que desafia qualquer planejamento governamental.
Por que a Costa Branca foi a Areia
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| Lideres no encontro de Porto de Mangue/RN |
Para entender o motivo da viagem, é preciso voltar um ano. Em julho de 2025, o Sebrae RN lançou oficialmente o Programa Líder – Território Empreendedor Economia do Mar em Areia Branca/RN. A proposta: mobilizar lideranças públicas, privadas e do terceiro setor dos sete municípios da Costa Branca para construir uma Agenda Estratégica de Desenvolvimento Regional voltada para a economia do mar — turismo, pesca, salinas, energia e transporte marítimo.
O programa seguiu uma metodologia própria do Sebrae, com oito encontros mensais, culminando no Fórum "Amanhã do Nosso Território". Ao longo de 2025 e início de 2026, líderes passaram por um processo de imersão que incluiu: nivelamento de informações, construção de visão de futuro, definição de missão e valores, e detalhamento de iniciativas estratégicas.
Em fevereiro de 2026, no sétimo encontro em Porto do Mangue, a agenda foi consolidada. Em maio, durante o Fórum em Guamaré, os líderes entregaram publicamente a Agenda Estratégica para o desenvolvimento do território até 2035, acompanhada de um manifesto. Era o fim da fase de planejamento e o início da mobilização institucional. Mas planejar não basta. Era preciso ver, tocar, cheirar, provar. Era preciso entender, na pele, o que significa transformar um território pela base.
Chã de Jardim: onde tudo começou
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| Luciana Balbino conta a história e o sacrifício de iniciar essa trajetória de sucesso |
A comunidade de Chã de Jardim fica a sete quilômetros do centro de Areia, em frente ao Parque Estadual Mata do Pau-Ferro — 600 hectares de reserva ambiental com temperatura média de 22°C e umidade de 85%. Um microclima que parece pertencer a outro Brasil. Quando os visitantes chegaram, foram recebidos por Luciana Balbino de Souza — historiadora, presidente da ADESCO (Associação para o Desenvolvimento Sustentável da Comunidade da Chã de Jardim) e coordenadora do projeto de Turismo Criativo local. Luciana não precisa de slides para contar uma história: ela é a própria história.
Tudo começou em 2006, quando um grupo de 20 jovens chegou à encruzilhada que marca toda a juventude rural do Nordeste: ficar ou partir. As opções eram conhecidas — João Pessoa, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro. O êxodo rural era intensificado pela estrutura latifundiária, pelo crédito agrícola insuficiente e pela ineficiência de políticas públicas. A decisão daquele grupo foi a terceira via.
"Esses jovens estavam na hora de decidir se ficavam ou iam para São Paulo ou Rio de Janeiro. A gente decidiu ficar lá, mas para viver com dignidade, não para passar a necessidade que as pessoas passavam. Então decidimos usar o turismo como ferramenta." — Luciana Balbino
A semente: Doce Jardim e a fábrica reativada
A primeira ação concreta da ADESCO, fundada em 2006, foi reativar uma fábrica de polpas de frutas que estava fechada desde 1996. A unidade original pertencia a Maria do Carmo da Costa Libório, conhecida como DADÁ, e foi reaberta sob a marca "Doce Jardim" — produzindo polpas orgânicas, sem agrotóxicos, com frutas fornecidas pelos agricultores familiares da própria comunidade. Foi a semente. Dela nasceria um ecossistema inteiro.
Restaurante Vó Maria: gastronomia afetiva como filosofia
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| Restaurante rural Vó Maria em Chã de Jardim |
Em 25 de maio de 2013, sem capital próprio e com apenas dois sócios, Luciana inaugurou o Restaurante Rural Vó Maria — inicialmente com 80 lugares, hoje com 200 vagas e um anexo de 70. O restaurante não serve refrigerantes nem bebidas alcoólicas: a bebida é a polpa da fábrica Doce Jardim. O alimento é produzido pela própria comunidade — hortaliças, verduras, aves, carnes e frutas cultivadas ali mesmo, num circuito de economia circular que fecha em si mesmo.
Quando os líderes da Costa Branca se sentaram à mesa do Vó Maria, não encontraram apenas comida. Encontraram uma filosofia operacional: cada prato servido é o resultado de uma cadeia que começa na terra de um vizinho, passa pela fábrica de outro, é temperada pela receita de uma terceira e servida por um quarto — todos da mesma comunidade, todos com nome e endereço.
Os números falam por si:
● Mais de 40 empregos diretos atualmente
● 52 famílias impactadas diretamente
● 200 famílias impactadas indiretamente
Trilhas e pertencimento
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| Daniel Ribeiro, jornalista e guia de turismo, deu uma aula sobre o Parque Mata do Pau-Ferro |
A visita não foi só sobre números. Foi sobre trilhas, mãos e mudas. Os visitantes conheceram a Trilha do Cumbe — a mais leve, com 363 metros — guiados pelo guia de turismo e jornalista Daniel Ribeiro, que acumula as tarefas de assessor de imprensa e social média.
Uma experiência que mescla gastronomia, música e paisagem de uma forma que nenhum plano de marketing conseguiria fabricar.
Engenho Triunfo: a cachaça que virou império
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| Maria Júlia, um show de simpatia e empreendedorismo feminino |
O segundo dia da missão técnica levou o grupo ao Engenho Triunfo, onde conheceram Maria Júlia Baracho — a outra metade do que um participante chamou de "empoderamento feminino: praticamente tudo lá é liderado por mulheres potentes". A história do Triunfo é um romance de quarenta anos. Começou como o sonho de Antônio Augusto, marido de Maria Júlia, que dizia: "um dia eu vou ter um engenho para fazer a melhor cachaça de Areia". Ela, que adorava cachaça, decidiu: "é com esse que eu quero casar".
O começo foi de pedra — garrafas PET, estoque parado, máquinas inventadas pelo próprio Antônio, noites de engarrafamento com os quatro filhos depois de jornadas de 10 horas lecionando história e trabalhando como escrevente no Fórum Judicial. Até que um curso do Sebrae mudou tudo: o professor Fernando Valadares Novaes foi taxativo — "estava tudo errado". A partir dali, a cachaça melhorou.
Hoje, o Engenho Triunfo produz cerca de 20 mil garrafas por mês e é um complexo turístico que inclui hotel, fábrica de chocolate (Engenho Cacau, iniciada em 2022) e loja que comercializa produtos de produtores locais. Maria Júlia, que em 2023 ganhou o prêmio internacional Passaporte Aberto no Panamá — junto com Luciana Balbino, as únicas representantes da Paraíba —, resume:
"Embora seja uma empresa familiar, temos a consciência de que já não somos donos dela, mas empregados da Triunfo." — Maria Júlia Baracho
O espelho deformante: o que a Costa Branca viu
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| Pousada Sítio Casa de Vó, a sofisticação do simples |
O que os líderes da Costa Branca viram em Areia não foi um modelo a ser copiado. Foi um espelho deformante — que, ao refletir a realidade da Costa Branca, revelava o que faltava e o que sobrava. Faltava organização comunitária. A Costa Branca tem mar, salinas, energia e potencial turístico de tirar o fôlego — mas os sete municípios ainda operam de forma fragmentada. O Programa Líder, com sua agenda até 2035, é a tentativa de costurar esses pedaços.
Sobrava, em Chã de Jardim, algo que não se compra nem se planeja de cima: pertencimento. Aqueles 20 jovens que decidiram ficar em 2006 não ficaram por falta de opção — ficaram por escolha. E transformaram a escolha em método. O depoimento de um dos participantes, publicado nas redes sociais em 29 de julho, sintetiza o impacto:
"O destaque absoluto da viagem foi a comunidade de Chã de Jardim. Uma verdadeira referência em turismo de base comunitária no Brasil! Mudaram a realidade do desemprego e transformaram o local em um modelo vivo de sustentabilidade, ecoturismo e gastronomia afetiva."
E mais: "A autonomia do povo: ninguém fica de braços cruzados esperando pelo poder público. A comunidade se organiza, se capacita, preserva a floresta, cria oportunidades e gera empregos para que a juventude não precise ir embora. Eles simplesmente fazem acontecer, e é o poder público que aprende com eles!" – Katharina Gurgel
ATURA: o pilar institucional
A ATURA — Associação de Turismo Rural e Cultural de Areia, presidida por Leonaldo Alves, foi apresentada como o grande pilar institucional que sustenta e impulsiona todas essas ações. É a estrutura que permite que Chã de Jardim, Engenho Triunfo e outros empreendimentos operem não como ilhas isoladas, mas como um arquipélago conectado.
Esse é, talvez, o aprendizado mais valioso para a Costa Branca: não basta ter líderes — é preciso ter associações que assegurem a continuidade. A ADESCO existe desde 2006. A ATURA agrega. A agenda estratégica da Costa Branca precisa agora encontrar seus equivalentes institucionais. Carlos Gustavo Lima, empresário hoteleiro em Macau há 20 anos e um dos líderes do programa, já havia sintetizado o desafio:
"Crescer sozinho é difícil, mas se nos unirmos, os sete municípios, faremos a diferença." — Carlos Gustavo Lima
Areia: muito além da comunidade
Areia encantou os visitantes para além de Chã de Jardim. A cidade é:
● Patrimônio histórico nacional tombado pelo IPHAN
● Terra natal do pintor Pedro Américo (autor de Independência ou Morte)
● Berço do primeiro teatro da Paraíba
● Capital da Cachaça
● Cidade de cafés de altitude e clima frio delicioso
Mas o que ficou não foi o frio nem a arquitetura. Foi a sensação — compartilhada por todos que pisaram naquele chão — de que transformação territorial não se decreta, se constrói. E se constrói de baixo para cima, com mãos que plantam mudas, preparam polpas, guiam trilhas, temperam comida e, acima de tudo, decidem ficar.
A volta para o mar
Quando o ônibus voltou a descer a serra, rumo ao litoral potiguar, os líderes carregavam algo que nenhuma agenda estratégica consegue transmitir em PowerPoint: a experiência visceral de ver, em duas mulheres — Luciana Balbino e Maria Júlia Baracho —, a prova viva de que é possível transformar um território sem esperar que o território se transforme primeiro.
A agenda até 2035 está escrita. Os encontros foram realizados. O manifesto foi entregue. Mas foi em Chã de Jardim, numa mesa do Restaurante Vó Maria, que a Costa Branca Potiguar entendeu o que realmente significa a palavra que mais aparece no documento estratégico do Projeto Líder: Desenvolvimento. Não é um conceito. É uma decisão.
📌 Aprendizados-chave da missão técnica
✅ Economia circular interna reduz dependência externa e maximiza impacto local
✅ Liderança feminina é fator decisivo em territórios transformados
✅ Associações institucionais (ADESCO, ATURA) garantem continuidade além das pessoas
✅ Experiência vivencial supera turismo de consumo passivo
✅ Fixação populacional é o indicador definitivo de sucesso territorial








Parabéns pela cobertura.
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