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| Dunas do Rosado em Porto do Mangue (Foto: Canindé Soares) |
Entre Porto do Mangue e Areia Branca, no litoral Norte potiguar, um mar de areia em movimento constante guarda um dos cenários mais deslumbrantes do Rio Grande do Norte — e também um dos mais inacessíveis. Agora, uma articulação entre poder público, classe política e empresários promete mudar essa história.
Elas já foram palco de filmes, novelas e produções cinematográficas. Suas areias de tom rosado, que mudam de forma conforme o vento, criam um espetáculo visual que rivaliza com os Lençóis Maranhenses — afinal, são o segundo maior conjunto de dunas móveis do Brasil, com cerca de 10 km² de extensão. Mas, ironicamente, quem mais as viu de perto foram as câmeras, não os turistas.
Localizadas na Área de Proteção Ambiental (APA) Dunas do Rosado, entre os municípios de Porto do Mangue e Areia Branca, as dunas permanecem, até hoje, praticamente intocadas pelo turismo. Enquanto Genipabu, a cerca de 300 km dali, atrai milhares de visitantes todos os anos com seus passeios de buggy há décadas, as Dunas do Rosado seguem como um segredo bem guardado — e, para muitos, um direito negado.
Foi para mudar esse cenário que uma comissão formada por lideranças da chamada Economia do Mar se reuniu na sede do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema), em Natal, com um objetivo claro: conquistar a liberação de uma rota para passeios turísticos de 4×4, motos e outras modalidades de exploração sustentável na região.
"O Idema está ao lado do progresso"
Recebidos pelo presidente do Idema, Werner Farkatt Tabosa, os representantes dos municípios e do setor produtivo encontraram uma postura firme, mas aberta ao diálogo.
"O Idema precisa cumprir as leis, isso é inegociável. Mas a autarquia estará sempre ao lado do progresso e à disposição dos municípios e do empresariado para os estudos e autorizações necessárias."
— Werner Farkatt Tabosa, Diretor Geral do Idema RN
A declaração de Werner reflete o delicado equilíbrio que o caso exige. Isso porque, segundo o próprio Idema, foram mapeados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) 59 sítios arqueológicos sob a área das dunas — um patrimônio que precisa ser preservado. A isso se somam as exigências das leis ambientais específicas da APA, que impõem restrições ao uso do solo e à circulação de veículos.
O desafio, portanto, não é pequeno: como compatibilizar a abertura ao turismo com a proteção de um ecossistema frágil e de um acervo arqueológico de valor incalculável?
A semente de um sonho

Crispiniano Neto, secretário de Turismos de Porto do Mangue e o empresário e visionário Clécio Azevedo da Zoom Expeditins
Antes, porém, de qualquer reunião oficial, houve um homem que olhou para aquelas dunas e enxergou possibilidade onde muitos só viam areia. Clécio Azevedo, da Zoom Expeditions, foi o pioneiro na reivindicação dos passeios turísticos nas Dunas do Rosado. Durante anos, bateu de porta em porta, buscou apoios, enfrentou silêncios e indiferenças — até encontrar, nesse grupo de lideranças da Economia do Mar, o amparo necessário para transformar a empreitada em pauta concreta.
"Sempre acreditei que as Dunas do Rosado poderiam ser um polo turístico tão importante quanto Genipabu. Fui atrás de todos os apoios possíveis, mas foi nesse grupo de líderes que encontrei o amparo para transformar esse sonho em realidade. Ver hoje o Idema, o deputado e os municípios sentados à mesma mesa discutindo a rota é a prova de que a perseverança vale a pena."
— Clécio Azevedo, Zoom Expeditions
Um deputado a favor da causa
Um dos nomes presentes na reunião foi o do deputado estadual Ivanilson Oliveira (PV), que assumiu um papel de articulador político no processo. Natural de Mossoró e com forte atuação na região Oeste e Costa Branca, o parlamentar conhece de perto as leis ambientais que incidem sobre a APA e se colocou como ponte entre os interesses do setor produtivo e a necessidade de atualização normativa.
"Conheço profundamente a legislação que rege aquela APA. Estou disposto a ajudar nas atualizações necessárias para que o progresso, finalmente, chegue àquelas paragens. Não se trata de passar por cima das leis, mas de atualizá-las para que o turismo sustentável seja viável."
— Ivanilson Oliveira, deputado estadual (PV-RN)
A fala do deputado aponta para um caminho que vem sendo discutido em diversas unidades de conservação pelo Brasil: a revisão de planos de manejo e a criação de marcos legais específicos que permitam atividades turísticas controladas sem comprometer a integridade ambiental.
O acordo que pode destravar o turismo na Costa Branca
Ao final da reunião, um encaminhamento prático foi estabelecido entre o Idema e os representantes dos municípios. O presidente Werner Farkatt Tabosa deixou claro quais são os próximos passos:
1. Oficialização do pedido — O município de Porto do Mangue deverá enviar um ofício formal ao Idema solicitando a abertura da rota turística.
2. Anuência dos proprietários — Será necessária a concordância por escrito dos donos dos terrenos por onde a rota deverá passar.
3. Rota preliminar — Deverá ser criado um traçado inicial, respeitando o mapa de sítios arqueológicos do IPHAN, para evitar áreas de preservação absoluta.
4. Autorização prévia — Com a rota definida, o Idema poderá conceder uma licença provisória para operação enquanto o marco legal tramita na Assembleia Legislativa.
É um plano que, se executado, pode colocar as Dunas do Rosado definitivamente no mapa turístico do Rio Grande do Norte, do Brasil — e, quem sabe, do mundo.
"Um sonho antigo que começa a se tornar realidade"
Quem mais celebrou o avanço das negociações foi o secretário de Turismo de Porto do Mangue, Crispiniano Neto. O município, que abriga parte significativa das dunas, vê na rota turística uma chance de transformar a economia local.
"Para nós, de Porto do Mangue, isso é um sonho antigo que começa a se tornar realidade. As Dunas do Rosado são o nosso maior patrimônio natural e, por anos, estiveram invisíveis para o turismo. Com essa rota, vamos gerar emprego, renda e desenvolvimento para a nossa gente, sem esquecer da preservação. É progresso com responsabilidade."
— Crispiniano Neto, Secretário de Turismo de Porto do Mangue
A fala do secretário ecoa o sentimento de uma região que, apesar de belezas naturais de tirar o fôlego, ainda luta para se firmar como destino turístico estruturado. A Costa Branca potiguar — que inclui municípios como Areia Branca, Porto do Mangue, Galinhos, Grossos, Macau, Tibau e Guamaré — tem um potencial imenso para o turismo de aventura, ecoturismo e lazer, mas carece de investimentos e de políticas públicas que transformem esse potencial em realidade.
O que vem pela frente
O caminho até a primeira trilha oficial nas Dunas do Rosado ainda tem obstáculos. A tramitação de um projeto de lei na Assembleia Legislativa, a elaboração dos estudos de impacto ambiental e a negociação com os proprietários das terras são etapas que exigem tempo, paciência e diálogo.
Mas o sinal dado pela reunião no Idema é claro: a porta, que antes parecia fechada, agora está entreaberta. E, para uma região que há tanto tempo espera, meio caminho andado já é motivo para comemorar.
Enquanto o vento continua a esculpir as dunas, movendo-as lentamente — como fazem há milênios —, os homens e mulheres da Costa Branca se movem também. Só que, para eles, o movimento é de esperança. A esperança de que, em breve, as Dunas do Rosado não sejam mais apenas um cenário de cinema, mas o palco da vida real de quem vive, trabalha e sonha naquele pedaço único do Rio Grande do Norte.



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