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Na esquina do Brasil, o vento vira pista: quatro dias e 370 quilômetros de Sertões Kitesurf

Por José Maria Pinheiro 

Espetáculo do esporte

O maior rally de downwind do planeta acontece em águas potiguares e cearenses (Foto: Thiago Diz)


Sexta edição do maior rally de downwind do planeta larga em Touros no dia 25 de novembro, atravessa a Costa Branca potiguar e termina em Fortim, no Ceará — 370 quilômetros para os profissionais, 203 para os amadores e R$ 70 mil em prêmios
  

Touros acorda cedo. No ponto mais a leste das Américas, o sol nasce primeiro — e o vento chega junto, do leste, com a cadência de quem já conhece o caminho. É ele que fez da praia de Perobas, com seus parrachos desenhando piscinas naturais na maré baixa, uma das pistas mais desejadas do kitesurf mundial. Na manhã de 25 de novembro, esse vento deixa de ser paisagem e passa a ser juiz.

Começa ali a sexta edição do Sertões Kitesurf, o maior rally de downwind do planeta. O formato nasceu em 2021, quando o Sertões — organizador do maior rally das Américas, aquele das picapes cruzando o sertão — trocou a poeira pela água salgada. A lógica migrou inteira: etapas encadeadas, checkpoints obrigatórios, cronometragem por GPS, resgate em tempo integral. O que mudou foi a pista. Agora ela é o oceano, e o combustível é vento.

A prova volta ao Rio Grande do Norte cinco anos depois de abrir sua primeira edição no estado. 

"Em 2026, o Sertões Kitesurf volta ao Rio Grande do Norte em um reencontro muito especial com um dos cenários mais marcantes do velejo nacional", diz Leonora Guedes, CEO do Sertões. 

O roteiro foi anunciado em abril, no estande potiguar da WTM Latin America, a principal feira de turismo das Américas. Não foi escolha de ocasião: o traçado atravessa um litoral que o esporte conhece de cor e que o turismo ainda aprende a vender.

Dia 1: a esquina e o marco

A largada é nos parrachos de Perobas, entre dez e doze da manhã, quando a maré e o vento se acertam. Touros guarda dois símbolos que resumem o país: o Farol do Calcanhar, um dos maiores do Brasil, e o Marco Zero da BR-101, onde a rodovia que costura o litoral do Nordeste começa a contar seus quilômetros. Pro e Open seguem dali para São Miguel do Gostoso. As categorias de percurso menor fazem uma perna curta pela manhã e voltam à própria praia de Touros, com chegada às 14h no ponto batizado de Amigos do Vento.

Dia 2: a península

São Miguel do Gostoso devolve ao evento a energia de 2021, quando abriu a prova. Na Praia do Cordeiro funciona a Vila Sertões; na Praia da Xepa, briefing e premiação do dia terminam em programação cultural; na Praia do Marco, o Marco do Descobrimento, as categorias curtas largam rumo a Galinhos. E Galinhos é o capítulo mais fotogênico do roteiro: uma península de areia que só se alcança de barco ou de 4x4, onde a Vila Sertões se instala na Praça dos Pescadores, entre a vila sem carros e o mar de dois lados.

Dia 3: o sal

De Galinhos, a frota desce para Grossos. No caminho, as categorias de percurso menor chegam à Praia do Rosado, em Porto do Mangue, onde as dunas brancas encontraram o mar há alguns milênios e não se mudaram mais. Em Grossos, o cenário troca de textura: salinas, dunas e manguezais emolduram o encontro do Rio Apodi-Mossoró com o Atlântico, e a Vila Sertões se instala na Praia de Pernambuquinho.

A equipe do Rio Grande do Norte

Leopoldo e Vive tem papéis distintos na administração
Complexo Barraca Azul na praia de Alagamar, Grossos. O CEO Leopoldo é o único Kite Leader do Rio Grande do Norte credenciado para a prova (Foto: Divulgação)

Quando a organização do Sertões Kitesurf divulgou o cartaz da edição 2026, um nome potiguar apareceu em destaque no rodapé, ao lado do botão de inscrição: Barraca Azul — Leopoldo, WhatsApp (84) 98840-6750. É o único Kite Leader do Rio Grande do Norte entre os nove operadores credenciados pela prova. Na prática, significa que quem quer velejar o Sertões saindo do RN não precisa resolver logística sozinho: a equipe da casa cuida de hospedagem, alimentação, transfers entre as etapas e carro de apoio, com a inscrição já incluída no pacote.

A Barraca Azul funciona na Praia de Alagamar, em Grossos — o mesmo município que recebe a chegada da terceira etapa, na Praia de Pernambuquinho. É um complexo que reúne pousada, restaurante e kite center à beira-mar, no corredor de ventos da Costa Branca: água flat na foz do Rio Apodi, ventos laterais constantes entre agosto e janeiro, média de 20 a 28 nós. "Vento constante. Mar infinito. Água flat. Estrutura completa", resume a própria casa na sua apresentação — exatamente os três atributos que um velejador procura e que, ali, vêm com cama, cozinha de frutos do mar e um ponto de encontro para o fim de tarde.

A casa tem dois donos e uma causa. Leopoldo e Vivi comandam a operação desde que trocaram a cidade pela praia de Alagamar, no trecho em que o asfalto termina e começa o paraíso. Ele, na água: instrutor, velejador, o homem que conhece cada rajada do corredor de ventos e cada bancada de areia que aparece na maré baixa. Ela, na casa: a pousada, a cozinha, o cuidado com quem chega. Juntos, transformaram um trecho de praia pouco conhecido em endereço de quem viaja o litoral potiguar atrás de vento.

E é essa a história que o Sertões Kitesurf 2026 vai contar ao país, ainda que sem dizer o nome: a de que o litoral do Rio Grande do Norte não se resume a Gostoso e Pipa. A Costa Branca — Grossos, Areia Branca, Porto do Mangue, Galinhos, Macau, Guamaré, Tibau — tem a mesma ventania, a mesma água morna e uma fração do movimento. A prova passa por ali em três dos quatro dias, e a Barraca Azul é o endereço em Grossos para quem quiser ver isso de perto: dormir, comer, aprender kite e, na sexta, 27, assistir à chegada da terceira etapa.

O papel de Kite Leader é a extensão natural do que a casa já fazia: receber velejador de fora e resolver o que ele não conhece. É logística, mas é sobretudo hospitalidade — o mesmo vento que faz a prova, agora com endereço certo e alguém do lugar para receber.

Dia 4: o rio e o fim

No sábado, o pelotão deixa o Rio Grande do Norte. As categorias curtas largam da Praia de Icapuí, no Ceará; Pro e Open saem de Pernambuquinho rumo ao destino final. A linha de chegada é o Jaguaribe Lodge, em Fortim, na Costa do Sol Nascente, onde o Rio Jaguaribe se entrega ao mar. Às 18h começa a festa de encerramento; às 19h, a premiação; à meia-noite, o evento se encerra.

O corpo e a conta

Aqui o vento reina
Os kitesurfistas do mundo inteiro encontram na costa potiguar o paríso dos ventos (Foto: Easy-Resize.com) 

São nove categorias, todas com disputa masculina e feminina, mais a competição por equipes. Pro e Open — profissionais e quem vive do kite, como instrutores e líderes de kite trips — enfrentam 370 quilômetros no acumulado das quatro etapas, com trechos de upwind, o velejo contra o vento, que exige do corpo o que o downwind poupa. Adventure, Master (45+), Gran Master (55+), Wing Pro, Wave e Pro Junior percorrem 203 quilômetros, sempre a favor. A Pro Junior aceita atletas a partir dos 10 anos, com tutor obrigatório na água, e revelou nomes que hoje competem no circuito internacional. Há ainda a Experience, etapa única e contemplativa, para quem quer sentir a travessia sem a pressão da tabela. Em 2026 o capacete passa a ser obrigatório para todos.

A edição de 2025, no Ceará, levou 186 velejadores à água — de 9 a 73 anos, recorde histórico. A de 2026 promete mais, e não apenas pelo número: pelo segundo ano consecutivo a prova integra os calendários oficiais da Confederação Brasileira de Vela (CBVela) e da Associação Brasileira de Kitesurf (ABK), o que transforma cada etapa em disputa de título nacional de Rally Cross.

Em jogo, R$ 70 mil em prêmios. Pro e Open dividem R$ 65 mil em dinheiro, além de equipamentos Cabrinha, produtos LIVE! e Thule. A Pro Junior tem premiação especial da Vivo — R$ 30 mil em produtos — e duas bolsas de estudo da Estácio; a equipe campeã leva R$ 5 mil e mais uma bolsa para o seu Kite Leader. As inscrições seguem abertas até 9 de novembro, direto com a organização ou por um dos nove Kite Leaders oficiais, operadores que vendem o pacote completo — hospedagem, alimentação, transfers e carro de apoio. Todo competidor precisa de equipe em terra; circular pela areia, por questão ambiental, gera penalização.

O que acontece em terra

A Vila Sertões é o coração de cada parada: loja oficial, atendimento ao competidor, hidratação, briefing às 18h e premiação do dia às 19h — com o pôr do sol como cenário. Às 13h, em todas as cidades, a organização troca o microfone pela enxada: hortas e oficinas de educação ambiental abertas às comunidades do percurso. É a parte do evento que não aparece no cronômetro e que, segundo a organização, mais tem crescido a cada edição.

Para o presidente da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur), Raoni Fernandes, o cálculo é direto: 

"Captar eventos como o Sertões Kitesurf é importante para promoção de destinos e fomento à economia das pequenas cidades por onde o downwind passa, usando o esporte como indutor do turismo. [...] É também uma excelente oportunidade de mostrar que temos nove meses de bons ventos por ano." Raoni Fernandes

O fim de novembro não foi escolhido por acaso: é o auge da temporada, com rajadas de 20 a 35 nós.

Quem não veleja também tem lugar na história. A Expedição Rota das Falésias percorre 400 quilômetros por terra a bordo de um UTV, entre 24 e 30 de novembro, acompanhando a prova de perto — 20 vagas e pacotes a partir de R$ 17.600.

No fim, sobra o que sempre sobra no Sertões: a sensação de que o Brasil é maior do que a gente tinha mapeado. Quatro dias, cinco cidades, um litoral inteiro atravessado pelo vento — e a certeza de que a esquina do continente ainda tem muito a contar. 

PROGRAMAÇÃO OFICIAL

DATA

TRECHO / BASE

DESTAQUES DO DIA

24/11
terça

Touros (RN)
Vila Galé · Praia de Touros

13h abertura da Vila Sertões, credenciamento, kits, foto oficial, equipes de apoio e educação ambiental · 18h briefing dos competidores · 20h fechamento

25/11
quarta

Touros → São Miguel do Gostoso

8h abertura · 10h/12h largada nos parrachos de Perobas, todas as categorias · após 13h largada Touros–Gostoso · 14h chegada das categorias curtas em Touros (Amigos do Vento) · 18h briefing e premiação em Gostoso · 20h programação cultural

26/11
quinta

São Miguel do Gostoso → Galinhos

10h/12h largada de Pro e Open na Praia do Cordeiro e das demais categorias na Praia do Marco · chegada em Galinhos, Praça dos Pescadores · 18h briefing e premiação · 20h fechamento

27/11
sexta

Galinhos → Grossos

10h/12h largada geral na Praça dos Pescadores · 14h chegada das categorias curtas na Praia do Rosado (Porto do Mangue) · Pro e Open chegam em Grossos, Praia de Pernambuquinho · 18h briefing e premiação

28/11
sábado

Grossos → Fortim (CE)

10h/12h largada de Pro e Open em Pernambuquinho e das demais categorias na Praia de Icapuí (CE) · chegada final no Jaguaribe Lodge, em Fortim · 17h encerramento das vilas · 18h festa · 19h premiação · 0h encerramento

 

SERVIÇO

Sertões Kitesurf 2026: 25 a 28 de novembro, de Touros (RN) a Fortim (CE). Credenciamento em 24/11, das 13h às 18h, na Vila Galé, praia de Touros.

Distâncias: 370 km (Pro e Open) · 203 km (Adventure, Master, Gran Master, Wing Pro, Wave e Pro Junior) · Experience: etapa única.

Inscrições: até 9 de novembro, em sertoes.com.br/kite, direto com a organização ou com um Kite Leader. Termo e atestado médico até 10/11.

Kite Leader no RN: Barraca Azul — Praia de Alagamar, Grossos (RN). Contato: Leopoldo, WhatsApp (84) 98840-6750. Pacote com inscrição, hospedagem, alimentação, transfers e carro de apoio.

Aeroportos: Natal (NAT), para a largada · Fortaleza (FOR), para a chegada.

Quem não veleja: Expedição Rota das Falésias — 400 km de UTV, 24 a 30/11, 20 vagas, a partir de R$ 17.600.

Promoção e chancela: Instituto Sertões · calendário oficial da CBVela e da ABK.

Imprensa: Rodrigo Gini · (31) 99616-4179 · Instagram @sertoes.kitesurf


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José Maria Pinheiro

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