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| Reunião do Cluster Economia do Mar realizado em parceria com o Sebrae |
O Rio Grande do Norte tem mar, tem vocação e tem uma história longa de gente que insiste. Por décadas, pescadores, empreendedores, técnicos, pesquisadores e trabalhadores de diferentes cadeias ligadas ao oceano sustentaram — muitas vezes sem holofote — uma economia real: a que nasce na costa, atravessa portos e estaleiros, chega à mesa, move serviços e mantém comunidades inteiras. Agora, essa força histórica ganha um ponto de virada: o avanço do Cluster Tecnológico Naval do RN na construção de um plano participativo para a Economia do Mar, com o Projeto Líder – Economia do Mar como motor de mobilização e alinhamento de lideranças.
Na quinta-feira (26/02), o Cluster realizou o segundo encontro de planejamento estratégico no auditório do Sebrae-RN, reunindo cerca de 70 participantes.
Representantes de bancos, agências de fomento, entidades de defesa do setor produtivo, academia, governos municipal e estadual, além de integrantes da sociedade civil organizada, ocuparam o espaço para discutir prioridades, desafios e oportunidades. A iniciativa foi conduzida em parceria com o Sebrae-RN, que incorporou a Economia do Mar como uma das diretrizes estratégicas do seu planejamento nacional.
A aposta é clara: transformar um conjunto de potenciais dispersos em estratégia territorial, com governança, prioridades e capacidade de execução. Mais do que uma agenda setorial, a Economia do Mar passa a ser tratada como política de desenvolvimento sustentável: econômica, social e ambiental ao mesmo tempo. E, no centro desse movimento, está um elemento que costuma decidir o sucesso ou o fracasso de iniciativas dessa natureza: liderança com legitimidade, capaz de unir atores diferentes em torno de metas comuns.
"Vocação sem planejamento não gera resultado"
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| Com a presença do presidente do Sistema FIERN, Roberto Serquiz, o encontro discutiu o futuro da economia do mar. |
Durante a abertura do encontro, o presidente do Sistema FIERN, Roberto Serquiz, foi direto ao destacar a necessidade de planejamento estruturado para transformar a vocação natural do estado em resultados concretos.
"O Rio Grande do Norte sempre foi voltado para o mar. A própria geografia do estado revela essa vocação, mas não existe vocação sem planejamento. O RN reúne condições naturais estratégicas: pesca, turismo, posição geográfica privilegiada no Atlântico e diversas outras atividades ligadas ao setor. Precisamos reunir esforços para definir prioridades, objetivos e metas, a fim de estruturar essa estratégia de desenvolvimento." Marcelo Serquiz
A fala de Serquiz sintetiza um problema recorrente em territórios promissores: a distância entre potencial e execução. O RN tem ativos reais — costa extensa, portos, tradição pesqueira, energia renovável, posição logística —, mas historicamente enfrenta dificuldade em converter esses ativos em cadeias estruturadas, com produtividade, inovação e inclusão.
O que está em curso agora, com o plano participativo, é justamente a tentativa de reduzir essa distância. Não se trata de inventar uma nova vocação, mas de organizar a que já existe — e de fazê-lo com método, metas e participação ampla.
Protagonismo do setor: "nada melhor do que escutar todos os atores"
O presidente do Cluster Tecnológico Naval do RN, Djalma Júnior, ressaltou o desafio de consolidar o protagonismo do setor e a importância de ouvir quem está na ponta.
"Temos um grande desafio e precisamos ser protagonistas. Nada melhor do que escutar todos os atores envolvidos nesse processo para avançar de forma consistente." Djalma Junior
Para Djalma Júnior, o encontro encerra um ciclo de escuta e inicia uma fase ainda mais intensa: a dos grupos de trabalho. É a passagem do diagnóstico para a ação — e isso exige compromisso.
"É uma atuação voluntária, mas desafiadora, considerando que a Economia do Mar é ampla e diversificada." Djalma Junior
A diversificação citada por Djalma Júnior é, ao mesmo tempo, oportunidade e complexidade. A Economia do Mar não é um setor único: é um guarda-chuva que abrange pesca e aquicultura, logística portuária, construção e manutenção naval, energia (incluindo renováveis), turismo náutico, sal, serviços especializados, pesquisa e inovação. Cada um desses recortes tem dinâmicas próprias, gargalos específicos e necessidades diferenciadas de política pública, crédito e qualificação.
Por isso, a estratégia de dividir os participantes em eixos temáticos — como sal, energias, governança e turismo — durante o encontro foi uma escolha metodológica acertada. Permite que cada cadeia fale de suas demandas reais, sem diluição em um debate genérico.
Documento estruturado como instrumento de articulação
O secretário executivo do Cluster, Daniel Lana, explicou o objetivo prático do processo em curso: consolidar um documento que oriente a atuação institucional.
"Estamos ouvindo diversos participantes para consolidar um documento que será entregue ao Cluster, permitindo a articulação junto às entidades de defesa do setor produtivo. Esse trabalho é capitaneado pelo Cluster, com o apoio da Federação e do Sebrae." Daniel Lana
Aqui está uma diferença importante em relação a fóruns tradicionais: o foco em entrega concreta. Não é um encontro para produzir uma carta de intenções que será arquivada. É um processo de construção de um plano de ação — com identificação de desafios, oportunidades e diretrizes prioritárias.
A expectativa, segundo a matéria da FIERN, é que o plano sirva como instrumento orientador para políticas públicas, atração de investimentos e fortalecimento da cadeia produtiva marítima e costeira potiguar. Em outras palavras: um documento que pode ser usado como referência por gestores públicos, investidores, financiadores e próprios empresários do setor.
Projeto Líder Economia do Mar: quando liderança vira infraestrutura
Se porto e estrada são infraestruturas físicas, liderança é infraestrutura social. E é nessa camada — a das relações, da confiança e da capacidade de alinhamento — que o Projeto Líder – Economia do Mar se destaca.
Ao formar e mobilizar lideranças com visão territorial, o projeto ajuda a reduzir um dos maiores riscos de qualquer agenda de desenvolvimento: a fragmentação. Em territórios promissores, não falta boa ideia; falta convergência. O Líder Economia do Mar atua justamente como ponte entre atores que historicamente caminharam em paralelo: quem está na produção, quem regula, quem financia, quem pesquisa e quem vive do mar no cotidiano.
Mais do que "representar setores", líderes nesse processo cumprem funções concretas:
Traduzir necessidades locais em propostas executáveis;
Medir o que importa (metas, indicadores, prazos);
Negociar prioridades sem apagar ninguém;
Proteger o plano contra a troca de ventos políticos;
Valorizar quem já constrói o território há anos, muitas vezes à margem das decisões.
Esse último ponto é crucial. Em muitas regiões costeiras, há uma sensação recorrente de que projetos "chegam de fora" com promessas e saem sem deixar raízes. A agenda que se desenha agora tenta inverter essa lógica: colocar os atores históricos no centro do desenho — não como figurantes, mas como referência.
Valorização dos atores históricos: desenvolvimento não começa do zero
Um dos méritos de uma construção participativa é reconhecer algo que, em geral, os discursos oficiais esquecem: o desenvolvimento não começa quando o plano é lançado. Ele começa muito antes, nas tentativas, nas resistências e nos pequenos avanços de quem insiste quando o resto do sistema ainda não enxergou a oportunidade.
Na Economia do Mar, isso aparece com força. Há cadeias tradicionais — como pesca, aquicultura e serviços costeiros — que sustentam renda e cultura local, mas frequentemente enfrentam desafios de infraestrutura, assistência técnica, regulação, acesso a mercado e crédito. Há, ao mesmo tempo, cadeias industriais e tecnológicas (como construção e manutenção naval, logística portuária, energia e serviços especializados) que podem gerar empregos e contratos maiores, mas dependem de planejamento, qualificação e ambiente de negócios.
A valorização dos atores que "lutam há muito tempo" pelo desenvolvimento do território não é apenas um gesto simbólico: é estratégia de eficácia. Sem legitimidade social, não há governança que se sustente. E sem governança, projetos viram disputas, não entregas.
O encontro no Sebrae-RN, com a presença de Marcelo Rosado, presidente do SINECIM-RM e da Comissão Temática de Meio Ambiente da FIERN, reforça que a pauta ambiental também está no centro da discussão. Economia do Mar sustentável não é contraditória: é a única viável no longo prazo.
Sustentabilidade como regra do jogo, não como adereço
Falar em Economia do Mar, hoje, exige falar em sustentabilidade sem maquiagem. O oceano é ativo econômico, mas também é limite. O desenvolvimento que ignora capacidade ambiental, ordenamento e inclusão social costuma produzir curto prazo e conflito no longo.
Por isso, um plano participativo tem a chance de colocar a sustentabilidade no lugar certo: como critério de decisão. Isso significa, por exemplo, desenhar ações que:
aumentem produtividade e renda com proteção ambiental e ordenamento;
priorizem qualificação e inovação para elevar o padrão do trabalho;
fortaleçam cadeias locais e ampliem acesso a mercados com melhores práticas;
reduzam riscos e aumentem previsibilidade para atrair investimento responsável.
Em outras palavras: a Economia do Mar não é "um setor". É um sistema. E sistemas precisam de coordenação, metas e continuidade.
O que está em jogo: um território que pode liderar
O RN reúne condições que poucos territórios têm ao mesmo tempo: posição geográfica, vocação histórica, diversidade de atividades ligadas ao mar e um conjunto de instituições capazes de organizar o diálogo. O desafio — como sempre — é converter potencial em agenda de execução.
A construção do plano pelo Cluster e a mobilização do Projeto Líder Economia do Mar apontam para um caminho: menos dispersão, mais convergência; menos promessa, mais entrega; menos evento, mais governança. Quando líderes assumem o papel de articular e valorizar os atores históricos, o território deixa de ser apenas "promissor" no discurso e começa a ser competitivo e sustentável na prática.
O Cluster Tecnológico Naval do RN é uma associação civil sem fins lucrativos criada para impulsionar a geração de negócios relacionados à Economia do Mar no estado. A entidade foi fundada por seis instituições de interesses complementares: Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), Intermarítima Portos e Logística S.A., Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-RN), Empresa Gerencial de Projetos Navais, Cooperativa de Produção e Serviços da Cadeia Produtiva da Pesca e da Aquicultura do Brasil e Brava Energia.
No fim, o recado é simples: o mar do RN sempre foi riqueza. A diferença, agora, é que há um esforço organizado para que essa riqueza vire projeto comum — com liderança, método e respeito por quem há muito tempo mantém o território de pé.
Fonte de pesquisa: https://www.fiern.org.br/cluster-tecnologico-naval-rn-avanca-na-construcao-de-plano-participativo-para-economia-mar/




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